Como a guerra no leste europeu tem impactado a cadeia de suprimentos

Entenda como a guerra na Ucrânia afeta a logística de sua empresa e como lidar com os desafios em tempos de incerteza.

 

 

guerra-cadeia-de-suprimentosOs últimos acontecimentos envolvendo a crise diplomática e conflitos bélicos entre Rússia e Ucrânia deixaram os olhares das empresas brasileiras, especialmente as indústrias, ainda mais voltados para a política e economia externa. Empreendedores e gestores que ainda lidam com as consequências deixadas pela pandemia da Covid-19 agora também enfrentam no desafio de conciliar e preparar suas cadeias de suprimentos para os possíveis efeitos que podem surgir diante do conflito no leste europeu que se intensifica.

 

Falta de matérias-primas, alta nos valores de produtos essenciais, queda da demanda são alguns dos cenários que podem vir a agravar nos próximos dias caso o conflito não se resolva de forma diplomática. De acordo com especialistas logísticos, a guerra poderá impactar a cadeia de suprimentos, afetando diretamente os consumidores finais.

 

Uma pesquisa realizada em janeiro deste ano pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mencionada no portal da CNN, apontou que quatro entre dez empresas brasileiras, especialmente do setor industrial, ainda sentiam os impactos deixados pela pandemia do coronavírus, que influenciou diretamente o volume de produção pela falta de insumos, atingindo fortemente a fabricação de derivados de petróleo e veículos.

 

Voltando ao contexto atual,  vemos dificuldades similares em alguns setores. Em geral, o Brasil importa poucos produtos da Rússia e Ucrânia. Existem hoje no país cerca de 2,4 mil empresas que dependem diretamente de insumos e fornecedores dos dois países em conflito. Já em nível global, de acordo com o relatório de informações comerciais CIAL Dun & Bradstreet, mais de 374 mil empresas dependem da importação dessas nações.

 

Ainda que a Rússia (1,9%) e a Ucrânia (0,3%) representem menos que 2,5% das importações em escala mundial, ambos países estão entre os maiores exportadores de insumos do planeta, em especial, óleo de girassol (59%), ferro ou aço não ligado (26%) e trigo (26%). Vale acrescentar que a Rússia é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e líder mundial em reservas de gás natural.  Dessa forma, o impacto da guerra na Ucrânia pode afetar a cadeia de suprimentos em vários setores, elevando valores e preços de insumos básicos, como metais industriais, produtos agrícolas, gás natural e petróleo bruto, bem como impactando o transporte de cargas e limitando a produtividade da operação.

 

A seguir, vamos entender quais são os principais impactos na logística desencadeados pela guerra na Ucrânia, como eles podem atingir sua empresa e como se precaver em momentos de insegurança mundial.

 

 

Principais impactos causados pela guerra na cadeia de suprimentos

 

 

1. Queda nos investimentos e impacto econômico

 

Iniciada a guerra na Ucrânia com a invasão russa em 24 de fevereiro, toda a população mundial se alarmou. Com o passar dos dias e a permanência dos conflitos e intensificação dos ataques, o cenário econômico tornou-se mais incerto. Diante dessa situação, empreendedores, gestores e até mesmo a população em geral, que corresponde à parcela consumidora, se viu um tanto conservadora quanto aos seus investimentos.

 

Por um lado, temos os empreendedores, que já estavam cautelosos desde a crise do Covid-19 e que planejavam a retomada de novos investimentos para esse ano, inseguros com a guerra na Ucrânia. É comum que as empresas  façam a pergunta: “vale a pena investir em novos projetos agora?”. Esse questionamento pode envolver desde a construção de novos armazéns, aumento de equipe, até mesmo a aquisição de novas ferramentas e tecnologias, uma vez que não se sabe quais caminhos o conflito irá tomar. Nesse sentido, é natural que exista uma freada nos investimentos e também a busca por investimentos seguros e conservadores.

 

Contudo, os especialistas veem esse momento como crucial para a busca de soluções que aumentem a segurança e a eficiência dos negócios. Em sua palestra na XXV Conferência Nacional de Logística (CNL), Jim Tompkins,  supply chain thought leader e CEO da Tompkins International, defendeu que, em cenários de disrupção, como a pandemia e agora a guerra, é necessário que as empresas estejam abertas às novas ideias trazidas pela transformação digital. Segundo Tompkins, estamos vivendo “um processo de reinvenção que todos precisam passar. O mundo está volátil, convivendo com muitas complexidades e incertezas, e não há espaço para que haja resistências para essas inovações”. O palestrante ressaltou, ainda, a importância da colaboração entre os agentes e reforçou: “quando você fala de aceleração digital, você fala de colaboração. E quando você fala de aceleração digital e colaboração, você está falando de logística com excelência. É isso”.

 

Se, por um ângulo, os empreendedores e empresas tomam medidas cautelosas em relação ao seu investimento financeiro, por outro, temos a base que sustenta o mercado, os consumidores, que também se veem inseguros diante da situação atual. Nesse contexto, contar com tecnologias que fortalecem os elos, aumentam a segurança e a confiabilidade na relação empresa-cliente é estar um passo à frente, especialmente quando incertezas permeiam a sociedade.

 

 

2. Redução no fluxo marítimo e bloqueios em portos

 

A situação dos congestionamento portuários, falta de contêineres e atrasos de navios já vinha sendo discutida durante a pandemia do coronavírus e a projeção era otimista para o setor de transporte. No entanto, a guerra na Ucrânia deixou esse cenário mais delicado.

 

Com sanções econômicas estabelecidas nas últimas semanas, alguns dos principais grupos de navegação suspenderam as reservas de carga para importações e exportações russas, assim como muitos portos deixaram de receber embarcações que chegam da Rússia. Sendo assim, é provável que existam novas filas nos portos e armazéns prejudicados pela falta de recebimento de insumos.

 

 

3. Elevação dos custos de transporte 

 

Outro impacto significativo que empresas e consumidores puderam observar diante do conflito entre Rússia e Ucrânia foi o aumento do preço do barril de petróleo, hoje uma das principais fontes de energia do mundo.

 

Com as sanções econômicas tomadas em resposta à guerra na Ucrânia, reduziu-se a disponibilidade do petróleo, e, consequentemente,  seu preço foi elevado. Isso ocorre porque a Rússia é um dos países que detêm destaque na produção do combustível, sendo responsável por uma parcela significativa do fornecimento em nível mundial.

 

Para o Brasil, esse aumento gera uma reação em cadeia: a alta no preço dos combustíveis estabelece uma elevação nos valores dos produtos e serviços, como por exemplo, o frete. A logística de transporte brasileira é majoritariamente rodoviária, dessa forma, é praticamente impossível não repassar ao cliente os valores excedentes.

 

Contudo, isso pode ser um entrave em um contexto de alta inflação e insegurança do consumidor. Para “equilibrar a balança” é fundamental que as empresas busquem meios de reduzir seus custos internos, priorizando a eficiência nos processos e melhor uso de seus recursos.

 

 

4. Aumento dos preços de alimentos

 

Assim como a dificuldade do transporte marítimo de insumos e a alta nos valores do combustível, o aumento no custo dos alimentos é inevitável. O Brasil conta com uma cadeia robusta no desenvolvimento da agropecuária e depende da importação de fertilizantes russos para garantir a segurança alimentar do país.

 

De acordo com a entrevista cedida ao portal G1, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que o Brasil possui um estoque de fertilizantes suficiente para os próximos três meses, o que não prejudica a safra atual do agronegócio. Além disso, já existem negociações em andamento com outros fornecedores, como Canadá e Irã. A busca por novos fornecedores é uma estratégia para assegurar que o setor não sofra complicações caso o conflito entre Rússia e Ucrânia se estenda por mais tempo.

 

 

5. Aumento generalizado da inflação

 

Empresas e consumidores brasileiros já vinham observando na prática o aumento nos valores de produtos no país. Esse foi o reflexo dos últimos anos em todo o mundo. No entanto, é provável que a inflação continue aumentando de forma generalizada.

 

Entre os produtos afetados, teremos combustível e alimentos, conforme mencionado anteriormente. Os preços do petróleo, dos fertilizantes e importantes grãos, como milho e trigo, aumentaram consideravelmente no mercado e, além de afetarem a cadeia de suprimentos de inúmeros setores industriais, também impactam o transporte, influenciando nos preços do frete.

 

Sabemos o quanto o custo do frete e tempo de entrega são fatores decisivos para a realização de uma compra, especialmente quando falamos de e-commerces e estratégias híbridas de venda (omnichannel).

 

Por isso, é importante avaliar a logística de frete e entregas, considerar a melhor forma de reduzir custos, seja otimizando espaços no caminhão, organizando o despacho por regiões ou verificando pontos de melhorias nos processos de rota de pedidos e entregas.

 

 

Como minha empresa deve agir em tempos de crise?

 

Falamos sobre os principais impactos que a guerra na Ucrânia podem causar em sua empresa direta ou indiretamente, mas como as cadeias de suprimentos podem passar por uma crise de forma cautelosa e se precaver das ameaças que o cenário atual oferece ao mercado? Antes de tudo, enquanto gestores logísticos e empreendedores, existe a oportunidade de tomar decisões que apoiem o bem comum. E é diante desse momento difícil e instável que as cadeias de suprimentos têm a possibilidade de fazer a diferença para seus consumidores finais, a partir de alguns passos:

 

1. Priorize sua equipe

 

Apesar de estarmos vivendo um momento difícil nos diferentes setores, o mundo inteiro está passando por essa situação. Dessa forma, mantenha-se informado, transmita segurança e comunique com clareza aos seus funcionários e equipe que também estão com várias dúvidas. Fale sobre a política da empresa e as formas com a quais lidam com a situação. Afinal, seus funcionários podem estar inseguros, e a empatia é essencial para manter boas relações de trabalho, bem como a motivação e a produtividade.

 

 

2. Reavalie seus fornecedores

 

Em momentos de crise, é importante avaliar o que seus fornecedores estão fazendo pelo bem comum e também as estratégias que utilizam para gerenciar um período delicado. Essa é a hora de alinhar os valores da sua empresa com os de seus fornecedores, levantando as seguintes questões como ambos podem assegurar e prevenir dos possíveis problemas? Existem planos de contingência?  Quais as estratégias a curto, médio e longo prazo, em caso da guerra na Ucrânia impactar mais os negócios? Contar com fornecedores seguros permite que sua empresa tenha estratégias sólidas e uma relação mais confiável com os parceiros.

 

Outra opção é a busca pela diversificação dos seus fornecedores. É provável que hoje você tenha empresas parceiras e fiéis, mas ter um plano B pode evitar que sua empresa interrompa a operação dentro da cadeia de suprimentos pela falta de insumos ou atrasos nos envios.

 

 

3. Regionalize sua cadeia de suprimentos

 

Cadeias de suprimentos globais ainda sofrem consequências dos últimos dois anos e, na medida em que o mundo enfrenta bloqueios nos transportes e rotas já utilizadas para acesso aos fornecedores, aumenta-se o risco de que operações paralisem em parte ou até mesmo por completo.

 

Diante dessa realidade, uma das tendências que vem ganhando força no mercado é a regionalização da cadeia de suprimentos. Impulsionada pela crise da Covid-19, a guerra na Ucrânia despertou esse assunto novamente, ou seja, muitas empresas estão considerando trazer para mais perto algumas de suas operações, seja para países, estados ou cidades mais próximas de onde ocorre a venda dos produtos. Segundo a pesquisa realizada em Julho de 2020 pela a Associação das Câmaras de Indústria e Comércio Alemãs (DIHK), 40% das empresas já contam com fornecedores novos e mais próximos.

 

Portanto regionalizar cadeias de suprimentos pode evitar bruscas interrupções de operações, além de otimizar recursos e deixar os processos mais ágeis.

 

 

4. Otimize seus recursos e invista estrategicamente

 

Apesar do comportamento natural em momentos de crise ser a cautela nos investimentos, é possível realizar ações inteligentes e estratégicas capazes de gerar melhor retorno financeiro ainda em tempos inseguros. Uma aposta é contar com a tecnologia para otimizar processos e usar melhor os seus recursos. Uma vez que não é possível fugir da alta inflação, é possível encontrar novas formas de driblar e reduzir custos.

 

 

5. Mantenha-se atualizado

Parte da responsabilidade dos gestores das cadeias de suprimentos é estar ciente do que acontece no mundo e de como suas decisões impactam na economia local e mundial. Portanto, leia notícias, assista jornais e escute com atenção tudo que acontece na economia global. Faça relações com o cenário da sua empresa e de como novas medidas impactam nos seus resultados, fornecedores, funcionários e operação.

 

 

6. Lidere com excelência

 

Tome iniciativas e lidere com excelência sua equipe. Passe segurança, analise as oportunidades de melhorias de forma estratégica, realize negócios com propósito, seja realista sobre sua influência e realize decisões seguras respeitando, acima de tudo, a ética e a política de sua empresa.

 

 

 

** Neste artigo você conseguiu compreender os impactos que a guerra na Ucrânia pode causar em sua cadeia de suprimentos e como o mercado está respondendo ao conflito político atual. Além disso, você agora sabe como deixar o ambiente operacional minimamente seguro para sua equipe, seguindo suas políticas e ética empresarial. Nós da Delage temos compromisso com a informação e vamos auxiliar você nessa jornada, estando ao seu lado neste período de incertezas. Caso precise de uma orientação, tenha dúvidas ou mesmo queira compartilhar suas experiências, entre em contato conosco!



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